07 fevereiro 2010

A erva

Bons eram os tempos em que os amigos se reuniam no saudoso salão de chá da Benamor, hoje convertido em sapataria, mantendo, felizmente, a traça arquitectónica primitiva. Já lá vão, uns bons 30 anos.
Rapazes ainda na idade da parvalheira mas já assumindo comportamentos de responsável vivência, todos eles trabalhadores, alguns deles também com o estatuto de estudante.
Era o convívio após almoço e jantar, servindo de sala de estar sobretudo ao fim-de-semana. Discutia-se o que nesta idade era discutível, acertavam-se encontros e semeavam-se desencontros, organizavam-se bailes de garagem e promoviam-se outras habilidades com o intuito de conseguir e consolidar os namoricos engendrados.
Num determinado sábado solarengo, dia em que estava aprazado um festival nocturno de música rock no Estádio 1º de Maio, o Aurélio, com intuito de fazer figura, discretamente questionou-me sobre a hipótese de lhe conseguir um pouco de erva, pedido que foi por mim acarinhado, abrindo-lhe perspectivas de que seria satisfeito.
Não encontro razões para lhe alimentar esse desejo, para além daquelas ditadas pela enorme vontade de brincar.
Da Benamor fui cumprir a rotina do namoro, passando a tarde a engendrar maneira de não faltar ao prometido.
E as coisas aconteceram naturalmente. Chegado a casa para o jantar, dei de caras com um ramalhete de cidreira seca que a minha mãe tinha pendurado numa das paredes da cozinha. Não podia arranjar erva de melhor qualidade que aquela posta ao meu dispor.
Quando cheguei ao ponto de encontro, já levava a encomenda previamente esmigalhada e envolvida em papel vegetal, dando ao conteúdo a dignidade condizente com o seu estatuto.
O nosso amigo, que já lá se encontrava, com os olhos brilhantes de curiosidade incontida, disfarçadamente me interrogou sobre o estado do pedido, ao que eu, alimentando o suspense que a situação merecia, com o indicador aposto sobre os lábios lhe recomendava prudente silêncio, enquanto com o mesmo dedo apontava para o bolso da camisa onde guardava a encomenda, posteriormente transferida para o bolso dele de forma discreta.
Cada um foi à sua vida, eu para o namoro, ele, em grupo com os demais, para o combinado concerto.
Na primeira oportunidade quis eu saber como tinha decorrido o espectáculo, e ao que me foi dado constatar, não podia ter sido melhor. Os efeitos da erva, previamente convertida em charros, foram de tal modo eficazes que todos passaram por momentos alucinantes de difícil descrição, impressionando quem à sua volta se encontrava.
Imagine-se o desalento daquelas mentes quando passados alguns dias abri o livro, dando a conhecer a verdadeira origem do produto.
Ficou a promessa duma vingança à medida.

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